Lisístrata – Aristófanes

Uma obra de teatro escrita durante os últimos anos da Guerra do Peloponeso que ocorreu entre 431a.C. e 404 a.C.. Mais especificamente, dois anos após a derrota Ateniense na expedição à Sicília. Evento desastroso para Atenas e que seria o ponto de virada da guerra à favor das cidades a favor de Esparta.

Enfim, trata-se de uma rebelião liderada por uma mulher ateniense chamada Lisístrata propondo e incentivando mulheres de outras cidades a realizar uma greve de sexo para a interrupção da guerra.

Após as mulheres atenienses tomarem a Acrópole e forçarem os homens à negociação, há um final feliz com o sucesso da empreitada de Lisístrata.

A obra é uma crítica e uma sátira à sociedade da época. Há hoje uma idealização pacifista em torno da obra, mas na realidade, nunca é defendido o fim das guerras, mas sim, o fim de uma guerra fratricida e longa, que já cobrava um preço grande da sociedade. Não diria que é crítica à condição da mulher na época, pois parte da sátira parece vir desse ponto centralmente, colocando as mulheres como capazes de modificar o rumo da guerra.

É muito interessante nessas obras de teatro como podemos perceber várias questões do dia a dia da sociedade da época. As mulheres não tendo direito a participar das decisões ou exercer cargos, sendo vistas como importantes para cuidar da casa basicamente em vários momentos. Também é muito interessante os comentários ácidos a respeito de vários personagens da época, muitos dos quais esquecidos na história.

Outro ponto que me chamou atenção foi uma crítica à decisão de Atenas de não aceitar uma trégua proposta por Esparta naquele momento que viria a ser um marco na guerra e que citei inicialmente. A crítica faz referência a esta decisão de Atenas como mais uma decisão que a cidade se arrependeria e que Atenas ficaria conhecida no futuro por suas decisões desastrosas sempre que tinha oportunidade.

A Guerra do Peloponeso destruiu boa parte do que conhecemos da Grécia antiga, ferindo de morte a modelo greco e abrindo caminho para a tomada da Grécia pela Macedônia 66 anos depois.

 

 

 

 

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Poesia: O Mundo é Um Moinho – Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

 

Essa música é linda e enquanto a ouvia, pensava no seu significado. Depois vi que há grande polêmica sobre ela. Como fica a análise desta música/poesia quando analisada friamente.

Poesia normalmente permite mais de uma interpretação e é isso que a faz ser tão bonita.

Vamos lá.

Identifica-se algumas premissas.

Ainda é cedo amor

Preste atenção querida

Ouça-me bem amor

Nestes versos fica evidente uma relação de carinho entre quem escreve e a pessoa para a qual a letra foi escrita.

Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Na avaliação do poeta, essa pessoa é muito jovem ou ainda imatura para a decisão que toma. No último verso, ela não parece saber como chegar onde deseja. Há uma decisão de partir, porém o caminho vindouro ainda é incerto.

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Apesar do poeta saber que a decisão esta tomada, ele fará a argumentação com sua opinião.

Aqui, por falar em esquina, muitas pessoas interpretam como um sinal de prostituição. A mim, parece mais complementar o sentido de caminho, rumo, destino, intersecções no caminho do que qualquer outra coisa. Se nossa vida é uma caminhada, cada esquina marca o tempo e nossas experiências, por exemplo.

Então, em meu entendimento, há a argumentação do poeta que o caminho que ela escolhe a consumirá e a mudará para sempre. A vida caindo também passa o sentimento de mudança negativa, com o tempo correndo e a vida se esvaindo.

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó

Há um argumento sutil neste verso de que a decisão de partir é motivada por sonhos. Claro, na visão do poeta, partir atras destes sonhos é um erro. O mundo tratará de destruir essa ilusão.

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

O poeta da a entender que o motivo da partida é o amor. Também em sua visão, haverão outros amores que igualmente cobrarão um preço pelo erro de partir. No caso, restará sua aversão pelas regras sociais, se levarmos em conta o significado clássico de cinismo.

Essa decisão errada, destruirá sua vida, aqui em analogia com um abismo. Um abismo cavado por ela mesma, com seus pés, ao decidir partir.

Então, uma pessoa por quem o poeta tem grande afeto. Uma filha, por exemplo. Jovem, imatura, mas capaz de tomar a decisão de partir. Uma partida motivada por amor, mas um amor que o pai não acredita que vá ser bom. Uma decisão de o tempo mostrará errada e destruirá a vida que ela espera ter.

Essa é uma maneira de entender a letra. Outra visão mais sutil é que o poeta acaba falando mais de si mesmo, acaba dando mais informações sobre seu pensamento e sua vida que sobre a vida da pessoa que esta partindo. Afinal, o que a mulher que esta partindo pensa de tudo que esta sendo cantado, no caso?

O poeta parece estar fazendo um argumento baseado em sua própria visão de mundo e na experiência que ele conhece.

O amor que faz partir é um amor por um trabalho? Outra pessoa? Um sonho? Uma missão de vida? Nada disso fica explícito no poema…

Independente do motivo, a experiência do poeta é um fracasso certo. Se seu filho tem o objetivo de ser feliz, viajar pelo mundo, ser presidente… se há uma possibilidade de dar certo, entendo que sempre vamos tentar ajudá-lo ou corrigir o caminho. Nunca arrasar completamente esse sonho… a não ser que não vejamos a menor possiblidade de dar certo… em nossa visão.

O poeta em sua vida, ao tentar sonhar, sempre fracassou. Não conhece e portanto não reconhece a possibilidade de sucesso, apenas da falha, do fracasso e da decepção tendo seguido o mesmo caminho no passado.

Parece que fui muita  além do que a letra permite?

Bom, como disse, é isso que a faz tão bonita.

Segue a música cantada pelo próprio Cartola abaixo:

As Nuvens – Aristófanes

Parece ser bem mais difícil a análise de uma peça de teatro já que trata-se de literatura imaginativa.
A identificação de argumentos e premissas não se aplica como em um livro expositivo.
De qualquer modo, selecionei alguns momentos representativos.
Antes disso, sobre o que trata a obra.
Esta obra foi escrita para o teatro e apresentada em Atenas em época contemporânea à vida de Sócrates.
Ela descreve através da comédia, a ideia de um pai endividado de inscrever seu filho em uma escola de filosofia nova, comandada por Sócrates, para que aprenda um método de argumentação em visa dar razão a um argumento, mesmo que errado. Técnicas associadas aos sofistas.
O própria pai se inscreve na escola, mas sendo limitado, acaba conseguindo inscrever o filho. Ao voltar para casa o filho bate no pai e sugere que irá bater inclusive na mãe e provará que tem razão usando argumentos que parecem lógicos, mas não éticos.
A obra termina com o arrependimento do pai que decide queimar a escola de Sócrates.
Há vários momentos hilários. Me lembraram muito o teatro de rua que via quando era pequeno. Tive a impressão de estar vendo a peça ser apresentada.
Segue alguns trechos:
Aqueles caras ensinam os outros, se eles quiserem contribuir com algum dinheiro, a tornarem vitoriosas todas as causas, justas ou injustas, usando só as palavras.
Strepsiades apresentando a ideia de inscrever o filho na escola de filosofia.
STREPSIADES E que trambique ele imaginou para dar comida a vocês?
DISCÍPULO Ele espalhou sobre a mesa de um ginásio de esportes uma fina camada de cinzas, curvou uma haste de ferro e usou a haste como um compasso. Enquanto todos olhavam embasbacados ele escamoteou um manto para vender e com o dinheiro comprou comida.
STREPSIADES Por que, então, vamos admirar o famoso Tales?
Ironizando a ideia de deixar de admirar Tales de Mileto por terem Sócrates ao lado.
SÓCRATES Mas você também jura pelos deuses? Para início de conversa, aqui entre nós não existe esta moeda.
Sócrates negando os deuses da cidade.
De modo nenhum! São as Nuvens celestes, grandes deusas dos ociosos; elas nos oferecem o saber, a dialética, o entendimento, a linguagem elevada e verbosa, a arte de comover e de enganar.
O maior deus para Sócrates seriam as nuvens.
Não prestaríamos atenção a nenhum outro dos sofistas de hoje, que vivem com a cabeça na estratosfera, excetuando apenas Pródico, por sua sabedoria e erudição, e a você, por seu andar soberbo nas ruas, por seu modo de olhar para os lados, pelos sofrimentos que suporta andando descalço, por sua confiança em nós, por sua pose imponente.
Imagina Sócrates no centro de Atenas abordando as pessoas.
SÓCRATES Que Zeus? Não zombe de mim! Zeus não existe.
Novamente negando os deuses da cidade.
SÓCRATES Você é capaz, de agora em diante, de acreditar apenas em nossos deuses – o Caos, as Nuvens e a Língua, somente estes três e mais nenhum? STREPSIADES Nunca mais vou pedir nada a outros, ainda que eles apareçam na minha frente, e não vou fazer sacrifícios, nem oferecer vinho ou incenso a eles.
Uma das principais ideias da obra.
PARÁBASE Direi francamente a verdade a vocês, espectadores, invocando Diôniso, de quem sou discípulo. Queiram os deuses que eu seja o vencedor e seja considerado um bom poeta! Conhecendo o discernimento de vocês, e convencido de que esta comédia, feita por mim há algum tempo com muito cuidado, era a melhor de minhas obras, achei que devia submetê-la ao julgamento do bom gosto de vocês em outra ocasião.
O autor neste momento se dirige diretamente à platéia através de um ator.
Ela não se diverte tampouco ridicularizando os carecas, nem dançando lambada; ela não recorre ao velho que, dizendo seus versos, espanca com um bastão todos que estão a seu alcance, impingindo suas brincadeiras de mau gosto. Ela não avança pela cena com uma tocha na mão gritando “iê! iê!”; ela confia apenas em si mesma, em seus versos. Quanto a mim, que sou o autor, tenho orgulho dela, e não tento enganar vocês apresentando duas ou três vezes o mesmo assunto. Invento sem cessar enredos novos, produtos de minha arte, cada um diferente do outro e todos agradáveis e alegres.
Algo interessante aqui. Ele diz que não deseja enganar ninguém, inventa o enredo. Sugerindo tratar-se de verdade outros fatos, especialmente as críticas.
SÓCRATES Essa é boa! “Se estivesse pendurado”! Você pronuncia estas palavras como um debiloide, com os lábios escancarados. Como este rapaz poderia aprender a arte de se livrar de uma sentença, de fazer uma acusação em juízo, de adoçar a voz para se tornar persuasivo? Para aprender tudo isso Hipérbolo me pagou um talento.
Sócrates admitindo receber para ensinar argumentação.
Sendo assim, meu jovem, escolha-me confiantemente, a mim, o Raciocínio Justo; você aprenderá a detestar a praça pública, a detestar os banhos públicos, a corar diante de tudo que é indecoroso, a zangar-se quando riem de suas boas maneiras, a levantar-se de seu assento quando os idosos se aproximam, a não ser grosseiro com os pais, a não praticar qualquer ato vergonhoso, ofensivo ao pudor que é o seu ornamento; a não correr em direção a uma dançarina para evitar que, observando tudo isso de boca aberta, receba nela uma maçã jogada por alguma mulher depravada e perca a sua boa reputação; a não replicar a seu pai, invocando o antigo Jápeto,66 com alusões desrespeitosas à idade dele, pois você foi posto neste mundo por seu pai.
Aqui, o argumento justo personificado faz sua defesa dos “bons costumes”.
Você passará o tempo nos ginásios atléticos, brilhante e viçoso como uma flor, em vez de declamar na praça pública bobagens grosseiras sem o menor sentido, como se faz atualmente, ou de gastar suas energias com questões armadas sobre chicanas, contestações e trapaças.
Um crítica ao moderno naquele momento.
Eu, o Raciocínio Injusto, recebi esta qualificação entre os pensadores exatamente porque tive antes de qualquer outro a ideia de falar contra as leis e a justiça. Esta arte tem um valor maior que qualquer outra; ela ensina a defender as razões mais fracas e fazê-las prevalecerem apesar de sua fragilidade.
Agora a vez do raciocínio injusto. Como ganhar uma discussão sem ter razão.
Veja, rapaz, os inconvenientes da moderação, e de quantos prazeres ela nos priva, com meninos e mulheres, com jogos, com comidas gostosas, com bebidas, com boas gargalhadas. Ao contrário, de que vale sua vida se você se priva de tudo isso?
Por que ter temperança?
Então eu obriguei meu filho a aprender a contradizer a justiça para ele me convencer de que é justo e bonito que os filhos batam nos pais!
Quando tudo da errado, o filho usa as técnicas para justificar bater no próprio pai.
FIDIPIDES Como é bom viver no meio de coisas novas e incrementadas, e desprezar as leis vigentes!
STREPSIADES Onde você quer chegar? Depois disso, nada impede você de se lançar no precipício onde são lançados os piores criminosos, junto com Sócrates e o raciocínio injusto.
STREPSIADES Que maluquice! Fui um louco renegando os deuses por causa de Sócrates!
Você me dá um bom conselho dizendo para eu não me meter num processo, mas em vez disso tocar fogo o mais depressa possível na casa destes trapaceiros.
STREPSIADES Por que vocês insultam os deuses e se intrometem nos assuntos da lua? Dirigindo-se a Xantias. Persiga esta gente! Jogue coisas neles! Pau neles, principalmente porque ofendiam os deuses!
Inicialmente eu estava gostando da obra por demonstrar um contraponto ao Sócrates de Platão.
Também é muito interessante que as acusações que levariam a execução de Sócrates, parecem ter sido feitas para este personagem da peça. Ele, nesta obra, é culpado de receber para ensinar técnicas sofistas e negar os deuses da cidade.
Na própria Apologia de Sócrates a uma menção de Sócrates a este peça aparentemente, sugerindo que ela tenha contribuído com as acusações. Será que a visão desta obra influenciou o julgamento de algumas pessoas no tribunal?
Também é muito interessante as diversas menções críticas a vários personagens da cidade que não entendemos bem agora. Eles não entraram para a história.
Me dei conta pensando nesses pontos que estava falando de mim. Eu gosto de história, eu gosto de imaginar como era a vida na época e o que aconteceu com Sócrates. Mas não estava falando da obra em si.
Pensando nisso, ficou mais claro do que se trata a obra.
Parece ser uma obra crítica ao novo, ou conservadora em outras palavras. Ela faz um elogio aos tempos antigos, como antigamente as crianças tinham educação, como o exército era glorioso e a cidade viva. Em contraponto ao presente da época, onde um filósofo questiona a natureza dos deuses e do mundo, ensina a questionar os antigos, questiona os costumes e vem conseguindo aparente sucesso na empreitada.
Acredito que a obra retrate o que uma parcela do povo de Atenas pensava de Sócrates, especialmente a parcela mais conservadora da cidade.
Acho uma obra muito bela, especialmente se imaginar que ela foi escrita em versos, perdendo muito na tradução. Faz um lindo conflito das novas gerações e das antigas. Digo isso, pois parece ser um conflito perene em diversas épocas.
Não conseguimos ver o valor da geração atual, estamos muito próximos dela. Me lembro de na escola citarem a década de 80 como década perdida. Não havia nada que prestava nela. Um tempo atrás, vi um comentário na internet com saudade da década de 80, onde a música tinha valor, haviam bandas boas e era tudo melhor.
Imagino o que o tempo vai selecionar de bom nos últimos anos. Será esse filtro do tempo que nos dirá se foram anos bons ou não.

Críton – Platão

Palavras chave: Justiça, injustiça, honra, dever

O livro é sobre o quê?

  1. Na minha opinião, um livro teórico expositivo.
  2. É um livro sobre o diálogo de Sócrates com um amigo dentro de uma prisão em Atenas sobre a possibilidade de fugir da cadeia e da pena de morte que é esperada para os próximos dias. Olhando mais atentamente, ele parece dar um conceito de justiça e demonstrar as conseqüências de viver dentro deste conceito até o limite.
  3. O livro é pequeno e se pode ser dividido eu diria que é dividido em duas partes.  A primeira parte com o Críton sugerindo que Sócrates escape e os motivos para a fuga. E o segundo momento é Sócrates elaborando as consequências lógicas da definição de justiça que ele propõe. Até a sua conclusão lógica de não fugir.
  4. Descubra quais foram os problemas do autor.
    1. É um livro que conceitua justiça e as consequências lógicas disso. Como é um diálogo, ele contrapõe somente o que a visão do autor permite. Ele coloca algumas premissas e algumas consequências, mas sendo um diálogo me deixa um pouco desconfortável com as conclusões. Imagino que o problema que ele tenta resolver é que muitas pessoas não sabiam o conceito de justiça e o que é viver uma vida justa. Acredito que este livro tente resolver isso… pelo menos para os homens livres, em Atenas, naquela época.

O que esta sendo dito e como?

Parece-me que vi uma mulher formosa de lindas feições, vestida de branco…

Sócrates começa descrevendo um sonho que parece recompensador. Acredito que esteja falando de Atenas, mas ele dá a entender que a mensagem foi bem clara para ele. Aqui, Sócrates indica já ter chegado sozinho à conclusão que levará Críton a aceitar.

 

viver bem, viver com honra e viver conforme a justiça é tudo um, continua de pé, ou não?

Aqui o autor iguala em importância a justiça, a honra e viver bem.

-Nem mesmo retribuir a injustiça com a injustiça, como pensa a multidão, pois o procedimento injusto é sempre inadmissível.

A premissa de que não se deve cometer injustiça sob nenhuma hipótese. Ou de que é melhor sofrer uma injustiça a ser o causador de uma.

Sócrates também trabalha a premissa de que a multidão não possui a razão apenas por ser a maioria. Sugerindo que devemos seguir o que é certo, sem medo de julgamento da multidão.

Sócrates-Adiante. Retribuir o mal que nos fazem é justo, como diz a multidão, ou injusto?

Critão-Absolutamente injusto.

Sócrates-Sim, porque entre fazer mal a uma pessoa e cometer uma injustiça, não há diferença nenhuma.

Aqui destaca-se a justiça como virtude máxima.

Sócrates- Em suma, não devemos retribuir a injustiça, nem fazer mal a pessoa alguma, seja qual for o mal que ela nos cause.

Aqui de forma mais clara, as premissas citadas.

Acaso imaginas que ainda possa subsistir e não esteja destruída uma cidade onde nenhuma força tenham as sentenças proferidas, tornadas inoperantes e aniquiladas por obra de simples particulares?

Parece associar justiça com leis. E leis com boas cidades. Em outras palavras, justiça são as leis. Onde há leis boas, há cidades fortes.

Aqui parece haver um erro de lógica. Pois, podemos ter leis boas e cidades fracas e leis fracas e cidades fortes em minha opinião. Podem até haver relação não causal, mas pelo texto, subentendo a ideia de causa. Onde a consequência não existe sem a causa. Bom, será que é possível acusar um erro de lógica em Platão, ou será que esta era exatamente a intenção. Questiono essa possibilidade em relação as conclusões da análise.

Que sabedoria é a tua, se ignoras que, acima de tua mãe, teu pai e todos os outros teus ascendentes, a pátria é mais respeitável, mais venerável, mais sacrossanta, mais estimada dos deuses e dos homens sensatos?

Novamente, as leis acima de tudo e a justiça igualmente. Até mesmo acima de núcleos familiares. Difícil aceitar essa premissa, mas a aceito para seguir a análise.

Todas as consequências a partir das premissas apresentadas são bastante lógicas.

é verdade o que dizemos quando afirmamos que te obrigaste aos deveres de cidadão sob nosso império, não em palavras, mas de fato, ou é mentira?

Não parece ser permitido o recuo. É necessário viver de forma racional e lógica conforme as premissas. Recuar seria ilógico. Parece a ideia de honra antiga (ser coerente com seus princípios ao longo da vida). É necessário ter trabalhado as premissas longe da situação atual sob pena de estar sendo oportunista a favor de interesses próprios.

Se partires para uma das cidades mais próximas, digamos Tebas ou Mégara, que ambas têm boas leis – ali entrarás, Sócrates, como inimigo de suas instituições; todos quanto zelam por suas cidades te olharão de través, como um destruidor das leis; consolidarás a reputação de teus juízes, de sorte que pareçam haver-te julgado escorreitamente, porque todo violador das leis bem pode ser tido como corruptor dos jovens e dos levianos.

Ser ilógico assemelha-se a desonra e dá razão aos que te criticam.

Oh! sim, é por amor dos filhos que desejas viver, para os criares e educares! Mas, daí? Vais levá-los para Tessália, torná-los estrangeiros de criação e formação para que fiquem devendo mais esse benefício? Ou não será assim? Será que estando tu vivo e sendo eles criados aqui, terão melhor criação e formação sem a tua companhia, pois teus amigos é quem cuidarão deles? Então, se partires para Tessália, eles cuidarão, mas não hão de cuidar se partires para o Hades?

Parece bem lógico.

Não sobreponhas à justiça nem teus filhos, nem tua vida, nem qualquer outra coisa, para que, chegado ao Hades, possa alegar todas essas justificações perante os que lá governam. 

Ideia de justiça última pós morte. Como vives aqui, serás corrigido lá.

aqui não será melhor, nem mais justo, nem mais pio, para ti nem para nenhum dos teus; nem lá será melhor, quando tiveres chegado.  Presentemente, partirás, se partires vítima de injustiça, não nossa, das Leis, mas dos homens;

Uma associação de leis diretamente com justiça. Se há injustiça, é dos homens, não das leis.

 

O livro é verdadeiro?

Eu diria que em parte somente. Tenho dificuldade em aceitar a ideia de que leis estejam acima da família e como único conceito de justiça. Parece inicialmente que permite tudo esta conceituação. Ou seja, se a lei permite execuções ou apedrejamento de mulheres, isso é a justiça… Não posso concordar com essa consequencia do raciocínio apresentado. Leis que são injustas, existem. Outra questão é como saber que uma cidade ou país é mais justo que outro, se considerarmos apenas que a justiça são as leis… fica permitido tudo.

Após pensar bastante e conversar sobre o assunto, talvez o que esteja sendo dito aqui, não é que você deve obedecer uma lei injusta, mas submeter-se a ela. Essa ideia ficou mais clara após ler Apologia de Sócrates. Você pode não obedecer uma lei ou determinação, mas seria seu dever submeter-se às consequências. Nesse ponto de vista, preciso admitir que se todos os homens de uma cidade que permitem apredejar mulheres se negassem a fazê-lo, mesmo sob pena de morte, a lei teria que mudar. Ainda assim, fico desconfortável com essa linha de raciocínio onde justiça são as leis. É uma ideia inverosímel.

Uma outra ideia que surgiu é que este livro seja uma parábola praticamente. Será que é um livro afirmativo sobre como deveriam ser as coisas? Ou será um livro que explora um tema ao absurdo para mostrar sua inviabilidade? Acho menos provável essa última hipótese e fui convencido que não. Fugiria muito do estilo de todas as outras obras e a ideia de submeter-se às leis ao invés de obedecer as leis, me ajudou um pouco a entender.

Outro problema é que o livro só se aplica a pessoas livres. Um escravo não teria possibilidade de aceitação das leis como proposto. E eles eram talvez a maioria da população. Hoje, como somos livres, sua aplicação fica mais ampla.

E daí?

Conversando com outras pessoas sobre o assunto. Parece que a ideia que aceitamos as leis ao viver em determinado local é a base do que chamamos de contrato social. Esse conceito foi trabalhado neste livro. Então em parte, aplico conceitos desse livro no meu dia a dia. Ou aplicamos, já que todos se submetem a esse contrato social.

Não trouxe grande repercussão prática, além de me fazer ter mais interesse pela definição de justiça. Foi o primeiro livro que li com esse propósito e achei muito interessante. Parece que a definição de justiça é explorada com mais detalhes em outros livros e Críton seja um exemplo prático de viver esse conceito até uma situação limite de perda da vida.

Apologia de Sócrates – Platão

Palavras chave: Acusação, defesa, virtudes, sabedoria, justiça

O livro é sobre o quê?

  1. O livro é expositivo teórico aparentemente. Mais do que um retrato histórico fiel, parece ser um livro para esclarecimento de alguns pontos sobre a vida de Sócrates.
  2. O livro contém a defesa de Sócrates perante o tribunal de Atenas que o condena à morte. Em sua defesa feita de improviso, Sócrates esclarece pontos importantes de sua atuação em Atenas e, ao mesmo tempo, resume sua obra filosófica aos seus pontos mais importantes.
  3. O livro é dividido em três partes principais. A primeira consta da defesa de Sócrates, logo após a manifestação dos acusadores, que não constam por escrito, apenas deduzimos alguns argumentos conforme ele desenvolve sua defesa. A segunda parte ocorre após ser julgado culpado das acusações e parece servir para uma última argumentação antes de decidirem a pena que pagará pelos crimes. A terceira ocorre após a definição pela pena de morte e já demonstra sua aceitação pelo que o reserva.
  4. Descubra quais foram os problemas do autor.
    1. Essa é uma questão bem interessante e pela qual tenho muitas dúvidas em relação aos diálogos de Platão. O quanto é uma parábola para ensinar um conceito e o quanto é um retrato histórico do que teria acontecido. Como é um diálogo, ficamos com a visão do autor somente, que escolhe os argumentos que deseja contrapor. Meu sentimento, já que o julgamento aconteceu de fato é tratar-se mais de um relato histórico onde o autor aproveita para dar conceitos chave da filosofia socrática. Parece ter existido um sentimento contra questionamentos, materializado nos acusadores,  e um dos propósitos do autor foi dar uma resposta a esse movimento, eternizando a defesa de Sócrates, que apesar de improvisada, é rica nos pontos chave de sua filosofia.

O que esta sendo dito e como?

É necessário ler a ata da acusação jurada por esses tais acusadores: – Sócrates comete crime e perde a sua obra, investigando as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando isso aos outros.

Aqui detalhes da acusação. Ele especula sobre o céu e a terra e torna forte mesmo uma razão frágil.

Os acusadores parecem acusá-lo de ensinar sofistas, se posso dizer assim, parece ser acusado de ensinar a ter razão ou ganhar uma discussão mesmo não sendo verdadeiro ou dando razão ao que não é verdade.

Nota-se a referência à obra de Aristófanes, As Nuvens, logo após. Além de ser a próxima obra que devo ler, parece estar sendo acusado exatamente do que é popularizado neste teatro.

Mas o que é certo é que também eu me sentiria altivo e orgulhoso, se soubesse tais coisas; entretanto, o fato é, cidadãos atenienses, que não sei.

Ele não sabe ensinar. Pelo menos no modelo clássico da época de receber para ter tutor de alguém. Esse vem a ser um dos pontos centrais de sua defesa. Como cobrá-lo se ele nunca prometeu ensinar algo e nunca cobrou por isso. Como responsabilizá-lo por algo que ele nunca clamou ter feito.

Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio dele, sem dúvida, o oráculo, e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: Este é mais sábio que eu, enquanto tu dizias que eu sou o mais sábio. Examinando esse tal: – não importa o nome, mas era, cidadãos atenienses, um dos políticos, este de quem eu experimentava essa impressão. – e falando com ele, afigurou-se-me que esse homem parecia sábio a muitos outros e principalmente a si mesmo, mas não era sábio.

Uma das melhores passagens da obra é a descrição do que parece ser seu dia a dia. Procurando pessoas diversas para encontrar alguém sábio e se decepcionando por notar que ninguém possui a noção do quanto não sabe. Ou da dimensão do que desconhece. Saber que ele sabe muito pouco, acaba o colocando como o mais sábio de sua época.

de que pode a mesma pessoa acreditar na existência das coisas demoníacas e divinas, e, de outro lado, essa pessoa não admitir demônios, nem deuses, nem heróis? Isso não é possível.

Ele não nega que tenha críticas aos deuses respeitados na cidade, mas faz sua defesa por relação lógica. Se acredita em coisas divinas, acredita nos deuses, logo a acusação seria inválida.

Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja quanto possível melhor, e vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vem, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados.

Aqui ele parece resumir sua obra em conceitos chave.

A alma deve ser trabalhada para ser a melhor possível. Em outras palavras, a riqueza não traz virtudes, mas as virtudes trazem riqueza e bens.

isso jamais seria possível, pois que não pode acontecer que um homem melhor receba dano de um pior.

Mais uma premissa se destaca. A maior virtude é justiça. Um homem melhor não pode fazer injustiça contra o pior.

contrário considero muito maior mal fazer o que agora eles estão fazendo, procurando matar injustamente um homem.

Uma premissa presente em Críton também. Fazer injustiça é inadmissível. É melhor sofrer uma injustiça a realizar uma contra alguém.

aproximando-me sempre de cada um de vós em particular como um pai ou irmão mais velho, persuadindo-vos a vos preocupardes com a virtude?

Imagino a cena em Atenas. No centro da cidade, um velho filósofo se aproximando e puxando assunto para te tirar da zona de conforto.

quem combate verdadeiramente pelo que é justo, se quer ser salvo por algum tempo, deve viver a vida privada, nunca meter-se nos negócios públicos.

Quem quer dedicar a vida a ser justo deve manter-se afastado do público. Pode haver justiça e injustiça no privado. Se estiver envolvido com o público, necessariamente haverá injustiça.

Ora, julgais que eu teria vivido tantos anos, se me tivesse aplicado aos negócios públicos, e procedendo como homem de bem, tivesse defendido as coisas justas, e, como deve ser, tivesse dado a isso maior importância?

Dedicando a vida a justiça e sendo público, teria sido morto antes.

Em resumo, parece que, novamente, é reforçado o caráter de justiça como a virtude mais importante. Em um primeiro momento, achei que poderia estar entrando em conflito com as premissas em Críton, porém acho que uma das mensagens é que deve-se submeter-se às leis, não necessariamente obedecê-las, especialmente quando são injustas. No momento que ele decide não seguir uma lei, ele aceita sofrer suas consequências, mesmo se extremas como a morte. É preferível morrer a realizar uma injustiça. Em Críton essa premissa parece ser seguida ao máximo, até uma injustiça contra alguma lei ou alguma cidade.

Em paralelo, parece haver uma denúncia contra a degradação filosófica da cidade, onde foi mais fácil matar um filósofo que viver enfrentando suas questões. Nesta obra, literalmente, a voz do povo não é a voz de Deus.

Impressionante como um livro pequeno pode ser tão profundo.

O livro é verdadeiro?

Eu diria que sim, concordo com as premissas e suas conseqüências lógicas. Acho que uma filosofia que se preocupe em trabalhar a alma de forma mais virtuosa e baseada na justiça  é uma linha filosófica que me atrai e tento me guiar por ela.

E daí?

Se a acho verdadeira e concordo com ela, eu deveria a seguir exatamente. Logo, eu estaria disposto a perder a vida a cometer uma injustiça contra algo ou alguém? Se isso é o que importa, eu vivo uma vida justa? Não totalmente… Então, por quê? Por que eu penso mal de alguém em primeira opção? Será que ganho algo com isso? Eu realmente acredito que devemos viver uma vida justa… qual a dificuldade de aplicar isso na vida real?

Preciso deixar essa questão no ar sendo assimilada por mim…

Fico feliz de ter registrado minhas considerações no blog e iniciado por este livro. Devo passar minhas impressões sobre Críton que foi o primeiro que li aqui também. Eu manteria esse registro de qualquer maneira, quem sabe aqui, as discussões possam ser melhoradas com a participação de outras pessoas interessadas no assunto.

Filosofia ocidental

Este blog serve ao propósito de ser um registro de meus estudos de obras ocidentais de filosofia/cultura.

A motivação veio após leitura do livro “Como ler livros” de Mortimer Adler. Esse livro é um ponto de virada na minha vida literária. Recomendo a todos que posso como o livro mais importante que li em muitos anos.

Realizo uma discussão com um amigo que compartilha o interesse no assunto e enriquece o entendimento das obras.

A lista de leitura é a inspirada na sugestão de leitura em dez anos dos maiores livros da literatura ocidental presente na obra “Great Books of the Western World” por Hutchins e Adler.

Não sou especialista na área nem um estudioso de longa data, sou um trabalhador normal que acha muito divertido meditar sobre o assunto e ir aprendendo coisas novas… Portanto, todos meus erros de análise aqui são perdoáveis…

 

 

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