Parece ser bem mais difícil a análise de uma peça de teatro já que trata-se de literatura imaginativa.
A identificação de argumentos e premissas não se aplica como em um livro expositivo.
De qualquer modo, selecionei alguns momentos representativos.
Antes disso, sobre o que trata a obra.
Esta obra foi escrita para o teatro e apresentada em Atenas em época contemporânea à vida de Sócrates.
Ela descreve através da comédia, a ideia de um pai endividado de inscrever seu filho em uma escola de filosofia nova, comandada por Sócrates, para que aprenda um método de argumentação em visa dar razão a um argumento, mesmo que errado. Técnicas associadas aos sofistas.
O própria pai se inscreve na escola, mas sendo limitado, acaba conseguindo inscrever o filho. Ao voltar para casa o filho bate no pai e sugere que irá bater inclusive na mãe e provará que tem razão usando argumentos que parecem lógicos, mas não éticos.
A obra termina com o arrependimento do pai que decide queimar a escola de Sócrates.
Há vários momentos hilários. Me lembraram muito o teatro de rua que via quando era pequeno. Tive a impressão de estar vendo a peça ser apresentada.
Segue alguns trechos:
Aqueles caras ensinam os outros, se eles quiserem contribuir com algum dinheiro, a tornarem vitoriosas todas as causas, justas ou injustas, usando só as palavras.
Strepsiades apresentando a ideia de inscrever o filho na escola de filosofia.
STREPSIADES E que trambique ele imaginou para dar comida a vocês?
DISCÍPULO Ele espalhou sobre a mesa de um ginásio de esportes uma fina camada de cinzas, curvou uma haste de ferro e usou a haste como um compasso. Enquanto todos olhavam embasbacados ele escamoteou um manto para vender e com o dinheiro comprou comida.
STREPSIADES Por que, então, vamos admirar o famoso Tales?
Ironizando a ideia de deixar de admirar Tales de Mileto por terem Sócrates ao lado.
SÓCRATES Mas você também jura pelos deuses? Para início de conversa, aqui entre nós não existe esta moeda.
Sócrates negando os deuses da cidade.
De modo nenhum! São as Nuvens celestes, grandes deusas dos ociosos; elas nos oferecem o saber, a dialética, o entendimento, a linguagem elevada e verbosa, a arte de comover e de enganar.
O maior deus para Sócrates seriam as nuvens.
Não prestaríamos atenção a nenhum outro dos sofistas de hoje, que vivem com a cabeça na estratosfera, excetuando apenas Pródico, por sua sabedoria e erudição, e a você, por seu andar soberbo nas ruas, por seu modo de olhar para os lados, pelos sofrimentos que suporta andando descalço, por sua confiança em nós, por sua pose imponente.
Imagina Sócrates no centro de Atenas abordando as pessoas.
SÓCRATES Que Zeus? Não zombe de mim! Zeus não existe.
Novamente negando os deuses da cidade.
SÓCRATES Você é capaz, de agora em diante, de acreditar apenas em nossos deuses – o Caos, as Nuvens e a Língua, somente estes três e mais nenhum? STREPSIADES Nunca mais vou pedir nada a outros, ainda que eles apareçam na minha frente, e não vou fazer sacrifícios, nem oferecer vinho ou incenso a eles.
Uma das principais ideias da obra.
PARÁBASE Direi francamente a verdade a vocês, espectadores, invocando Diôniso, de quem sou discípulo. Queiram os deuses que eu seja o vencedor e seja considerado um bom poeta! Conhecendo o discernimento de vocês, e convencido de que esta comédia, feita por mim há algum tempo com muito cuidado, era a melhor de minhas obras, achei que devia submetê-la ao julgamento do bom gosto de vocês em outra ocasião.
O autor neste momento se dirige diretamente à platéia através de um ator.
Ela não se diverte tampouco ridicularizando os carecas, nem dançando lambada; ela não recorre ao velho que, dizendo seus versos, espanca com um bastão todos que estão a seu alcance, impingindo suas brincadeiras de mau gosto. Ela não avança pela cena com uma tocha na mão gritando “iê! iê!”; ela confia apenas em si mesma, em seus versos. Quanto a mim, que sou o autor, tenho orgulho dela, e não tento enganar vocês apresentando duas ou três vezes o mesmo assunto. Invento sem cessar enredos novos, produtos de minha arte, cada um diferente do outro e todos agradáveis e alegres.
Algo interessante aqui. Ele diz que não deseja enganar ninguém, inventa o enredo. Sugerindo tratar-se de verdade outros fatos, especialmente as críticas.
SÓCRATES Essa é boa! “Se estivesse pendurado”! Você pronuncia estas palavras como um debiloide, com os lábios escancarados. Como este rapaz poderia aprender a arte de se livrar de uma sentença, de fazer uma acusação em juízo, de adoçar a voz para se tornar persuasivo? Para aprender tudo isso Hipérbolo me pagou um talento.
Sócrates admitindo receber para ensinar argumentação.
Sendo assim, meu jovem, escolha-me confiantemente, a mim, o Raciocínio Justo; você aprenderá a detestar a praça pública, a detestar os banhos públicos, a corar diante de tudo que é indecoroso, a zangar-se quando riem de suas boas maneiras, a levantar-se de seu assento quando os idosos se aproximam, a não ser grosseiro com os pais, a não praticar qualquer ato vergonhoso, ofensivo ao pudor que é o seu ornamento; a não correr em direção a uma dançarina para evitar que, observando tudo isso de boca aberta, receba nela uma maçã jogada por alguma mulher depravada e perca a sua boa reputação; a não replicar a seu pai, invocando o antigo Jápeto,66 com alusões desrespeitosas à idade dele, pois você foi posto neste mundo por seu pai.
Aqui, o argumento justo personificado faz sua defesa dos “bons costumes”.
Você passará o tempo nos ginásios atléticos, brilhante e viçoso como uma flor, em vez de declamar na praça pública bobagens grosseiras sem o menor sentido, como se faz atualmente, ou de gastar suas energias com questões armadas sobre chicanas, contestações e trapaças.
Um crítica ao moderno naquele momento.
Eu, o Raciocínio Injusto, recebi esta qualificação entre os pensadores exatamente porque tive antes de qualquer outro a ideia de falar contra as leis e a justiça. Esta arte tem um valor maior que qualquer outra; ela ensina a defender as razões mais fracas e fazê-las prevalecerem apesar de sua fragilidade.
Agora a vez do raciocínio injusto. Como ganhar uma discussão sem ter razão.
Veja, rapaz, os inconvenientes da moderação, e de quantos prazeres ela nos priva, com meninos e mulheres, com jogos, com comidas gostosas, com bebidas, com boas gargalhadas. Ao contrário, de que vale sua vida se você se priva de tudo isso?
Por que ter temperança?
Então eu obriguei meu filho a aprender a contradizer a justiça para ele me convencer de que é justo e bonito que os filhos batam nos pais!
Quando tudo da errado, o filho usa as técnicas para justificar bater no próprio pai.
FIDIPIDES Como é bom viver no meio de coisas novas e incrementadas, e desprezar as leis vigentes!
STREPSIADES Onde você quer chegar? Depois disso, nada impede você de se lançar no precipício onde são lançados os piores criminosos, junto com Sócrates e o raciocínio injusto.
STREPSIADES Que maluquice! Fui um louco renegando os deuses por causa de Sócrates!
Você me dá um bom conselho dizendo para eu não me meter num processo, mas em vez disso tocar fogo o mais depressa possível na casa destes trapaceiros.
STREPSIADES Por que vocês insultam os deuses e se intrometem nos assuntos da lua? Dirigindo-se a Xantias. Persiga esta gente! Jogue coisas neles! Pau neles, principalmente porque ofendiam os deuses!
Inicialmente eu estava gostando da obra por demonstrar um contraponto ao Sócrates de Platão.
Também é muito interessante que as acusações que levariam a execução de Sócrates, parecem ter sido feitas para este personagem da peça. Ele, nesta obra, é culpado de receber para ensinar técnicas sofistas e negar os deuses da cidade.
Na própria
Apologia de Sócrates a uma menção de Sócrates a este peça aparentemente, sugerindo que ela tenha contribuído com as acusações. Será que a visão desta obra influenciou o julgamento de algumas pessoas no tribunal?
Também é muito interessante as diversas menções críticas a vários personagens da cidade que não entendemos bem agora. Eles não entraram para a história.
Me dei conta pensando nesses pontos que estava falando de mim. Eu gosto de história, eu gosto de imaginar como era a vida na época e o que aconteceu com Sócrates. Mas não estava falando da obra em si.
Pensando nisso, ficou mais claro do que se trata a obra.
Parece ser uma obra crítica ao novo, ou conservadora em outras palavras. Ela faz um elogio aos tempos antigos, como antigamente as crianças tinham educação, como o exército era glorioso e a cidade viva. Em contraponto ao presente da época, onde um filósofo questiona a natureza dos deuses e do mundo, ensina a questionar os antigos, questiona os costumes e vem conseguindo aparente sucesso na empreitada.
Acredito que a obra retrate o que uma parcela do povo de Atenas pensava de Sócrates, especialmente a parcela mais conservadora da cidade.
Acho uma obra muito bela, especialmente se imaginar que ela foi escrita em versos, perdendo muito na tradução. Faz um lindo conflito das novas gerações e das antigas. Digo isso, pois parece ser um conflito perene em diversas épocas.
Não conseguimos ver o valor da geração atual, estamos muito próximos dela. Me lembro de na escola citarem a década de 80 como década perdida. Não havia nada que prestava nela. Um tempo atrás, vi um comentário na internet com saudade da década de 80, onde a música tinha valor, haviam bandas boas e era tudo melhor.
Imagino o que o tempo vai selecionar de bom nos últimos anos. Será esse filtro do tempo que nos dirá se foram anos bons ou não.